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sábado, 2 de janeiro de 2010

A visualidade: Além e aquém das palavras

A visualidade: Além e aquém das palavras

Tomemos as narrativas fílmicas: “A partida” (Okuribito, Dir. Yojiro Takita, Japão, 2008) em cartaz no cinema HSBC; “O ponto vermelho” (DER ROTE PUNKT, Dir. Marie Miyayama, Alemanha, 2008) ainda inédito no circuito comercial, exibido Mostra de Cinema-2009; e “Hanami – Cerejas em flor” (Kirschblüten - Hanami, Dir. Doris Dorrie, Alemanha-França, 2008), em cartaz no espaço Unibanco da rua Augusta. Eles recortam temáticas que se que entrecruzam. Nos três filmes, as pausas suspensas do tempo: a gestualidade e o silêncio valem mais do que as palavras e diálogos. São obras sensíveis e dramáticas que abordam de maneira peculiar os rituais do cotidiano: comer, dormir e viver. Nos três filmes não existe uma preocupação com cortes rápidos, mas o tempo da contemplação, da meditação. As passagens entre a vida e a morte, das diferenças culturais entre o oriente e o ocidente, abordam o tema da família como vinculo afetivo e os casulos do corpo: velho e novo, estático e em movimento.

A amizade, a memória e as recordações redesenhadas no presente, passado e futuro, das passagens do tempo e espaço. Como resgatamos na morte aquilo deixado na vida? Como sentimos a ausência da presença de uma pessoa querida que já morreu? Como desfrutar os momentos essenciais da vida? Relembrando o filme de Bergman, “O sétimo Selo” em que a morte vem dialogar com um cavaleiro medieval jogando uma partida de xadrez. Nos filmes em questão o tema da morte é trabalhado de maneira muito mais complexa e deixa marcas nos corpos e nas almas.

As vestimentas: a materialidade da memória

No filme “A partida”, o morto passa por um ritual de purificação: recebendo o último banho do agente funeral contratado pela família, ele é vestido com suas roupas, seus acessórios, penteado e maquiado na frente de seus parentes, deixando-o com uma boa aparência para ser recebido numa outra dimensão. Já no filme “Hanami – Cerejas em flor”, a relação com as vestimentas também traz a memória afetiva e presentifica metafisicamente a imagem do corpo que está ausente. Como se a roupa pudesse fazer o outro reviver os momentos por sua materialidade: cor, caimento, desgastes, texturas e cheiro do dono. Assim, o personagem Rudi já na terceira idade e com pouco tempo de vida, ao perder a sua companheira, Trudi de um longo casamento, encontra-se sozinho. Os seus filhos cresceram e são egoístas demais para abdicar de suas vidas para cuidar do pai. Em vida, a sua mulher abandonara o sonho de ser dançarina de Buthô em prol do casamento e dos filhos. Lembrei-me do livro que li em 2004: “O Casaco de Marx. Roupas, memória, dor”, de autoria de P. Stallybrass que revela trajetória que o casaco de Karl Marx indo e vindo do corpo de seu dono à loja de penhores é refletida na obra “O Capital”. A memória que o casaco carrega e a relação do seu dono com o mesmo acabaram por gerar reflexões sobre consumo, valor dos bens de consumo e a relação deles com as pessoas.

No filme “Hanami – Cerejas em flor”, o personagem, na ausência de sua mulher vai viver alguns momentos a partir das suas vestimentas cotidianas. Assim dentro de uma pequena mala ele carrega para o Japão todos os pertences que vão corporificar a presença-ausência da esposa morta: fotos, um livro, um colar, um casaco azul, uma saia de bolinhas pretas e um robe de seda. Como se as roupas estivessem impregnadas de suas memórias pessoais e afetivas. Então, ele experimenta as roupas femininas, no seu corpo masculino e vai “mostrando a cidade” às suas roupas, como se um pedaço dela estivesse ali. As roupas vão muito além das palavras, no seu silêncio, transportam todas as nossas narrativas, memórias e afetividades. Assim, a materialidade da memória afetiva está aprisionada nas nossas roupas.


Cerejeiras em flor - Kirschblüten - Hanami
Nome original: Kirschblüten - Hanami
País: Alemanha/2008
Direção: Doris Dörrie
Com: Elmar Wepper, Hannelore Elsner e Aya Irizuki
Duração: 126 minutos
Classificação: 14 anos
Espaço Unibanco Augusta
R. Augusta, 1.470 e 1.475 - Consolação - Centro. Telefone: 3288-6780 (salas 1 a 3) e 3287-5590 (salas 4 e 5).
Aceita os cartões Diners, MasterCard, Visa. Ingresso: R$ 8 a R$ 18 (Sessão Cinéfila: R$ 5. Curta Petrobras às Seis: grátis). Desc. 50% para correntistas e funcionários do Itaú e Unibanco.

Veja também:


A PARTIDA - em cartaz no HSBC

O PONTO VERMELHO
Sites de consulta:
http://www.youtube.com/watch?v=uqiMLQPJUKA
http://www.departures-themovie.com/
http://www.mostra.org/

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EM 2011

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